O que a descentralização elimina de fato?

Redação do Museu BTC.com6 min de leitura

Pergunte o que significa descentralização e a resposta mais comum será algo como “é não precisar de banco”.

Não está errado, mas explica pouco. Mais interessante é notar quantas pessoas negociam cripto há anos pela conta de uma plataforma. Entram com um código recebido por SMS, pedem ao suporte que redefina a senha esquecida e veem os saldos na própria página da plataforma. A experiência é quase idêntica à do internet banking. Muita gente fala de descentralização todos os dias e raramente, ou nunca, chegou de fato a usá-la.

Por isso queremos começar do começo: o que a descentralização tira de cena e o que ela põe no lugar.

Comecemos pelo caixa da turma

Imagine uma turma de quarenta alunos em que cada um pôs US$ 10 no caixa da turma.

O normal é deixar o tesoureiro da turma cuidando do dinheiro. Quem já pagou, o que foi comprado e quanto sobrou, tudo vai para o caderno do tesoureiro. Ninguém confere, porque todos partem do princípio de que o tesoureiro é confiável.

Isso costuma funcionar bem, mas depende de uma coisa: todos precisam confiar no tesoureiro. Se ele anotar um valor errado, dificilmente alguém vai perceber. Se o caderno se perder, as contas se perdem junto. Se o tesoureiro resolver lançar uma despesa a mais, ninguém tem como conferir.

Agora experimente outro jeito. Não há tesoureiro. Os quarenta alunos mantêm cópias idênticas do livro de contas. Cada despesa é anunciada para a turma inteira, e todos a anotam ao mesmo tempo. Para alterar um lançamento, você teria de convencer a maioria da turma a alterá-lo junto com você, e, assim que uma cópia diverge das outras, o problema fica à vista de todos.

Esse segundo jeito é a descentralização na sua forma mais simples. (No Bitcoin, a “maioria” é contada pelo poder computacional, e não por cabeça; o guia do whitepaper explica por quê.) Sua essência é esta: nenhum guardião único em quem seja preciso confiar, um livro-razão mantido por todos e um registro que qualquer pessoa pode conferir a qualquer momento.

O Bitcoin pega essa sala de aula e a leva ao tamanho do mundo.

Quatro coisas que um banco faz por nós

De volta à vida real. Quando você transfere dinheiro para um amigo, o banco faz discretamente quatro coisas:

  1. Faz a contabilidade: mantém um livro-razão com quanto cada um tem.
  2. Autoriza: confirma que a transferência partiu mesmo do titular da conta.
  3. Impede o gasto duplo: garante que o mesmo dinheiro não seja pago duas vezes.
  4. Dá a operação por concluída: informa que a transferência foi efetivada e não pode ser desfeita.

O banco faz as quatro, e precisamos confiar que ele as faça bem. Na maior parte do tempo, ele faz. Mas um banco pode errar, bloquear uma conta ou quebrar.

A descentralização se propõe a dar conta dessas quatro tarefas sem um banco.

Sem banco, quem faz o trabalho?

Fazer a contabilidade: muitos milhares de nós operados de forma independente pelo mundo verificam e guardam, cada um, sua própria cópia do livro-razão. Qualquer pessoa pode baixá-lo, conferi-lo ou rodar seu próprio nó e participar. As cópias se verificam umas às outras, e nenhuma delas é a cópia “mestra”.

Autorizar: cada pessoa tem uma chave privada e a usa para assinar as próprias transações. Qualquer um pode verificar se uma assinatura é válida, mas ninguém consegue chegar à chave partindo da assinatura. Um alerta: a assinatura mostra que quem detém a chave aprovou a transação. Ela não diz nada sobre quem você é. Se outra pessoa obtiver a sua chave, as transações que ela assinar serão igualmente válidas.

Impedir o gasto duplo: esse era o problema mais difícil, e foi ele que Satoshi Nakamoto de fato resolveu. A rede inteira entra em acordo sobre a ordem das transações. Depois que todos registraram quando uma moeda foi gasta, ela não pode ser gasta uma segunda vez.

Dar a operação por concluída: ninguém declara nada. Depois que uma transação é gravada num bloco, novos blocos continuam sendo acrescentados depois dele. Para revertê-la, seria preciso refazer o trabalho de todos os blocos seguintes e depois ultrapassar a cadeia que os nós honestos continuam estendendo. Quanto mais tempo passa, maior o custo.

Juntando as quatro, a descentralização ganha nitidez: ela substitui a confiança numa única instituição central por código e consenso que qualquer pessoa pode verificar. Regras, livro-razão e autoridade continuam existindo. A diferença é que o código faz cumprir as regras, todos mantêm o livro-razão e a autoridade se apoia em fatos que qualquer um pode conferir por conta própria.

Não existe almoço grátis

Falar só das vantagens da descentralização seria desonesto. Ela tem pelo menos quatro custos.

É lenta e cara. Manter milhares de cópias do mesmo livro-razão, cada uma armazenada e verificada separadamente, sempre será mais lento e mais caro do que uma instituição manter um único conjunto de contas.

Quando algo dá errado, ninguém pode ajudar. Não há central de atendimento nem a quem recorrer. Se você enviar fundos para o endereço errado, perder sua chave privada ou assinar uma autorização maliciosa, o dinheiro em geral se perde para sempre. O risco que antes era do banco agora é seu.

As regras são difíceis de mudar. Sem ninguém no comando, qualquer mudança exige amplo acordo. O debate sobre o tamanho dos blocos do Bitcoin se arrastou por anos. Ele arrefeceu em grande parte em 2017, depois do fork do Bitcoin Cash, da ativação do Segregated Witness (SegWit) e do cancelamento da atualização SegWit2x naquele novembro, com cada lado seguindo seu caminho. O fato de ninguém poder mudar as regras sozinho é uma virtude, e também significa que mudar qualquer coisa é muito difícil.

A blockchain não pode garantir o que acontece fora dela. O código pode assegurar que um registro nunca seja alterado depois de gravado, mas não que ele fosse verdadeiro quando foi escrito. Assim que entram em jogo ativos, documentos ou identidades do mundo real, a confiança volta. Ela só mudou de lugar.

Quatro perguntas para testar uma alegação

“Descentralizado” virou quase um termo de marketing. Na próxima vez que você o encontrar, experimente fazer quatro perguntas:

  1. Quem mantém o livro-razão? Milhares de nós independentes ou um punhado de servidores operados por uma única empresa?
  2. Você consegue verificá-lo por conta própria? Ouvir que os dados são públicos não basta. Você consegue baixá-los, rodar um nó e conferir hoje?
  3. Alguma parte poderia mudar as regras sozinha, por exemplo atualizando um contrato, bloqueando uma conta ou alterando um saldo quando bem entendesse?
  4. Você detém o próprio ativo on-chain ou um número na conta de alguém? Quando suas moedas ficam numa plataforma de negociação, o que você vê em geral é um saldo no livro-razão da própria plataforma. A natureza jurídica desse saldo depende dos termos de serviço e da legislação local, e ele não é a mesma coisa que um ativo on-chain cuja chave você mesmo detém.

Um livro-razão mantido por muitas partes, dados que você mesmo pode conferir, regras que ninguém muda sozinho, ativos realmente nas suas mãos: quanto mais disso um sistema oferece, mais descentralizado ele é de fato. A descentralização é uma questão de grau e raramente cabe num simples sim ou não, e um projeto confiável dirá com franqueza até onde chegou.

Vale a pena?

A resposta depende de quem você pergunta.

A descentralização é uma troca. Você abre mão de parte da eficiência, de parte da conveniência e do conforto de saber que alguém vai intervir se algo der errado. Em troca, já não precisa depositar sua confiança em nenhuma instituição em particular. Em algumas situações, é um ótimo negócio. Em outras, talvez não.

Olhando por esse ângulo, os produtos que você vem usando podem começar a parecer um pouco diferentes.

Para ver o mecanismo em ação, visite A máquina da confiança e comece pela peça que mostra como uma transação é confirmada pela rede inteira sem que seja preciso confiar em ninguém.

Leia também

Aviso legal: Este artigo é uma introdução técnica geral e não constitui recomendação de investimento.

Voltar ao blog

Guia do museuMuseu BTC.com
O que você gostaria de saber sobre o Bitcoin?
Respostas baseadas nas exposições do museu e em fontes públicas