Tudo na blockchain
O Bitcoin entregou a confiança ao código; o Ethereum entregou o código a todos — e, a partir daí, a descentralização deixou de servir apenas para manter registros contábeis. Se o dinheiro pode ser descentralizado, o que mais pode? Esta sala investiga o que as pessoas de fato construíram com a mesma lógica de registros públicos, verificáveis e inalteráveis.
O whitepaper e o yellow paper do Ethereum · os padrões ERC-20/721/1155 · endereços de contratos de NFT e seu armazenamento · peças interativas sobre AMM e gas
Com uma mesma lógica compartilhada, as pessoas construíram contratos programáveis, finanças sem bancos, propriedade registrada em um livro-razão e organizações que se coordenam sem uma empresa — um mundo paralelo movido por código que qualquer pessoa pode inspecionar e usar.
O computador mundial
do livro-razão à programabilidadeAs origens do contrato inteligente
A expressão “contrato inteligente” é quinze anos mais antiga que o Bitcoin. Em 1994, Nick Szabo propôs que cláusulas contratuais poderiam ser escritas como protocolos de computador e executadas automaticamente por máquinas, sem depender de um tribunal para corrigir as coisas depois. Num ensaio posterior, de 1996, ele deu como exemplo a máquina de venda automática: você insere a moeda e recebe o produto, sem precisar confiar no vendedor. Cerca de vinte anos depois, a ideia ganhou corpo numa máquina programável: o Ethereum.
O whitepaper do Ethereum
No fim de 2013, Vitalik Buterin, então com dezenove anos, fez uma pergunta: se uma blockchain consegue manter contas, por que não consegue rodar programas arbitrários? Sua resposta foi embutir na própria cadeia uma máquina virtual Turing-completa, de modo que qualquer aplicação pudesse ser implantada como contrato inteligente. Este documento transformou a blockchain de livro-razão em computador mundial.
| Endereço | Saldo |
|---|---|
| 1A1z… | 50 BTC |
| 12cb… | 0.5 BTC |
| 1Hz9… | 2.1 BTC |
Registra quem tem quanto
| Conta | Saldo | Código · dados |
|---|---|---|
| 0xA1… | 3 ETH | — |
| 0xC0… | 120 ETH | transfer(…) |
| 0xB7… | 0.8 ETH | — |
Também guarda programas e seu estado, que qualquer um pode chamar
A Ethereum Foundation informa, nessa mesma página, que o whitepaper original não reflete mais o Ethereum como ele é hoje. O museu registra esse contexto histórico: o documento é exposto como original de uma ideia, não como documentação técnica atual.

O yellow paper do Ethereum
Para virar protocolo, uma visão precisa antes virar matemática. Gavin Wood especificou formalmente cada regra da Ethereum Virtual Machine (EVM): cada opcode, cada unidade de gas, cada transição de estado. Com isso, qualquer equipe pode escrever um cliente de comportamento idêntico. O whitepaper convence; o yellow paper dá precisão.
O lançamento do Ethereum e as linguagens de contrato
Em 30 de julho de 2015, foi criado o bloco gênese do Ethereum e teve início a fase Frontier: o artigo virou uma rede em funcionamento. Junto com ela, o Solidity se tornou a principal linguagem para implantar contratos, uma linguagem pensada a partir da premissa de que o código é o contrato. A partir daquele dia, qualquer pessoa podia instalar um programa nesse computador mundial.
A evolução dos padrões de token
Três padrões técnicos curtos definiram a forma dos ativos on-chain. O que eles têm em comum é uma interface única: basta seguir os mesmos nomes de função para que qualquer carteira, corretora ou marketplace reconheça automaticamente o que você emite. Aqui, a interoperabilidade não foi negociada em acordos comerciais: ela nasceu de padrões abertos.
ERC-20 · Token Standard
Uma interface comum para tokens fungíveis (transfer, approve etc.), que permite a qualquer pessoa emitir um token interoperável. O fim da barreira à emissão trouxe, de um lado, o boom de ICOs de 2017 e a tokenização de tudo e, de outro, o fracasso generalizado de projetos e a intervenção regulatória que vieram em seguida (SEC dos EUA, Report of Investigation on The DAO, julho de 2017). De Fabian Vogelsteller e Vitalik Buterin.
ERC-721 · Non-Fungible Token
Tornou interoperáveis tokens únicos e passíveis de posse (“deeds”): o DNA técnico do NFT. Redigido por Dieter Shirley (Dapper Labs) a partir dos CryptoKitties, com William Entriken, Jacob Evans e Nastassia Sachs.
ERC-1155 · Multi Token
Um único contrato que gerencia vários tipos de token (fungíveis e não fungíveis) com transferências em lote, e que se tornou o padrão eficiente para jogos e marketplaces. Nasceu na Enjin; de Witek Radomski, Andrew Cooke, Philippe Castonguay e outros.
O Merge do Ethereum
Em 15 de setembro de 2022, o Ethereum concluiu o “Merge”: a mineração (prova de trabalho) foi aposentada, e validadores que depositam ETH como garantia passaram a se revezar na produção de blocos (prova de participação). O consumo de energia caiu cerca de 99,95%. A operação costuma ser descrita como uma das migrações de engenharia mais complexas da história das blockchains, feita com o sistema em pleno funcionamento: uma rede avaliada em centenas de bilhões de dólares trocou seu mecanismo de consenso sem sair do ar. Qual dos dois mecanismos é mais seguro ainda é tema de debate (veja o Mural das questões em aberto, na sala Cultura e futuro).
Finanças sem bancos
DeFi: o banco desmontado em códigoComo o termo “DeFi” ganhou nome
Em agosto de 2018, participantes de um grupo no Telegram tentavam batizar o movimento de finanças abertas do Ethereum. Entre os candidatos estava Open Horizon; segundo pessoas envolvidas, o vencedor foi “DeFi” (pronunciado como DEFY). Estavam presentes, entre outros, Inje Yeo (Set Protocol), Blake Henderson (0x) e Brendan Forster (Dharma). Um termo que viria a designar dezenas de bilhões de dólares foi cunhado numa conversa de chat.
O nascimento do formador de mercado automatizado
As corretoras tradicionais casam compradores e vendedores por meio de um livro de ofertas. Na blockchain, esse casamento é lento e caro demais. Em 2016, Vitalik perguntou no Reddit se os preços não poderiam ser definidos automaticamente por uma fórmula, como acontece nos mercados de previsão. Dois anos depois, Hayden Adams transformou essa ideia no Uniswap: provedores de liquidez depositam dois tokens num pool, os traders fazem trocas diretamente com ele, e o produto constante x·y=k define o preço a partir das quantidades no pool.
Mover-se na curva é uma troca. Quanto mais ETH no pool, menos USDC cada ETH compra — e mais plana fica a curva.
Let's run on-chain decentralized exchanges the way we run prediction markets
A proposta de “rodar corretoras descentralizadas on-chain do mesmo jeito que rodamos mercados de previsão”, publicada num post no Reddit: uma das primeiras e mais influentes discussões públicas da ideia de AMM na comunidade Ethereum.
Uniswap Whitepaper v1
Hayden Adams transformou o AMM de produto constante numa corretora descentralizada funcional; a v1 entrou na mainnet em 2 de novembro de 2018. A v2 (maio de 2020) e a v3 (maio de 2021) introduziram mecanismos de liquidez cada vez mais refinados.
O banco desmontado em código
Os bancos fazem quatro coisas: emprestam, liquidam pagamentos, formam preços e executam garantias. O DeFi reescreveu cada uma delas como um contrato de leitura pública. As quatro peças abaixo são as partes-chave dessa reescrita. Um contrato público pode ser auditado, e suas falhas ficam igualmente expostas. A seção seguinte trata dos riscos conhecidos desse modelo.
The Dai Stablecoin System
Uma stablecoin descentralizada e sobrecolateralizada: os usuários bloqueiam ETH num cofre (CDP) para gerar DAI, e as liquidações mantêm a paridade. O SAI de colateral único, de 2017, deu lugar ao DAI multicolateral em novembro de 2019.
Compound & Aave Protocol
Mercados monetários on-chain com juros definidos por algoritmo. O Aave popularizou o empréstimo-relâmpago (flash loan), proposto pela primeira vez pelo Marble Protocol em 2018: o valor é tomado e devolvido sem garantia dentro de uma única transação, que é anulada por inteiro se o empréstimo não for pago. É um primitivo que não existe nas finanças tradicionais. O token de governança COMP (junho de 2020) trouxe a mineração de liquidez, um modelo que desde então passou por fases de expansão e de recuo.
ChainLink: A Decentralized Oracle Network
Os contratos não conseguem ler dados de fora da blockchain, e essa é sua maior limitação. As redes de oráculos fornecem aos contratos dados reais off-chain de forma a minimizar a necessidade de confiança, e se tornaram a infraestrutura de preços do DeFi. De Steve Ellis, Ari Juels e Sergey Nazarov.
Os três tipos de stablecoin lado a lado
As três dizem valer um dólar, por mecanismos radicalmente diferentes: a USDT é lastreada em reservas em moeda fiduciária (outubro de 2014); a USDC é lastreada em reservas em moeda fiduciária e emitida por uma empresa regulada (setembro de 2018); a DAI é sobrecolateralizada com criptoativos. Em cada caso, o risco está num lugar completamente diferente; o museu as apresenta lado a lado, sem estabelecer ranking.
O consórcio CENTRE foi dissolvido em 2023, e a USDC hoje é operada pela Circle; o MakerDAO passou a se chamar Sky. O contraexemplo que serve de alerta para as stablecoins algorítmicas (o colapso da Terra/UST) é narrado na sala Triunfos e desastres. Nada do que está acima constitui recomendação de investimento.
Após a reescrita: falhas conhecidas
A seção anterior apresentou os componentes básicos do DeFi; esta examina seus riscos conhecidos. Os quatro casos abaixo não são acidentes isolados, mas custos inerentes ao próprio desenho desses mecanismos.
Liquidação: a Quinta-feira Negra
Uma queda brusca de preços somada ao congestionamento da rede fez com que leilões de liquidação do MakerDAO fossem arrematados com lances de 0 DAI: as garantias saíram a preço zero, e os usuários liquidados não recuperaram nada do colateral restante. A seção anterior descreve a liquidação como a função que mantém a paridade; naquele dia, ficou claro que ela é também um risco assumido pelos usuários. A discussão completa e a resposta do protocolo estão no arquivo do fórum do MakerDAO.
Empréstimos-relâmpago: a outra face do mesmo primitivo
A seção anterior descreve o empréstimo-relâmpago (flash loan) como um primitivo que não existe nas finanças tradicionais, o que é correto; mas a mesma propriedade faz dele uma alavanca para manipular preços: tomar emprestado, manipular, lucrar e devolver numa única transação, sem garantia nenhuma. Os incidentes com o bZx em fevereiro de 2020 estiveram entre os primeiros em grande escala. Não se trata de defeito de implementação, mas de uma face inerente ao empréstimo instantâneo sem garantia.
Falhas em contratos: fundos sob a custódia do código
Os recursos de um protocolo DeFi ficam inteiramente sob custódia de contratos, sem nenhum intermediário capaz de reverter operações. Um erro no código equivale, portanto, a perda de fundos, e, depois de implantado, o contrato pode ser lido por qualquer um: auditores e atacantes leem o mesmo código. As estimativas dos valores roubados a cada ano variam muito conforme a metodologia, por isso nenhum número isolado é citado aqui.
Perda impermanente: o preço pago pelo provedor de liquidez
Quem fornece liquidez a um pool de AMM fica, quando o preço relativo dos dois ativos se altera, com uma posição que vale menos do que se tivesse simplesmente mantido esses dois ativos. Não é um acidente, e sim o custo inerente da formação de mercado por produto constante. A peça interativa de AMM logo a seguir mostra o lado de quem negocia; esta é a outra ponta do mesmo mecanismo.
Esta seção e a anterior são duas faces do mesmo mecanismo. O museu não se pronuncia sobre a viabilidade do DeFi no longo prazo.
Pool de liquidez AMM (interativo)
Uma corretora descentralizada não tem livro de ofertas — o preço é definido automaticamente pela fórmula de produto constante x·y=k. Arraste o controle deslizante para vender ETH e veja o preço escorregar conforme o tamanho da operação (slippage).
Taxas de gas e congestionamento (interativo)
Toda ação no Ethereum paga uma taxa de gas, cujo preço varia conforme o congestionamento. Arraste o nível de movimento da rede para ver como mudam o preço do gas e o custo de uma transferência.
Propriedade na blockchain
NFTs e arte digitalCada obra deste núcleo vem acompanhada de seu endereço de contrato on-chain e forma de armazenamento. Em geral, um contrato de NFT registra apenas quem é dono de qual token, mais um link para a imagem; a imagem em si costuma ficar no IPFS ou nos servidores do projeto, e só poucas obras são gravadas diretamente na blockchain. Para ver uma obra, consulte o endereço do contrato num explorador de blocos ou no site oficial do projeto.
Moedas coloridas (colored coins)
Antes de a palavra NFT existir, já havia quem se perguntasse se uma determinada quantia de bitcoin poderia ser “colorida” para representar um ativo do mundo real. O artigo de Meni Rosenfeld sobre colored coins, de 2012, expôs a ideia de forma sistemática. Ele é a raiz teórica dos ativos on-chain e dos NFTs, e um precursor de experimentos posteriores com ativos baseados no Bitcoin, como o Counterparty e as Rare Pepes (veja Cultura e futuro).
Explorando os primeiros NFTs
Em 3 de maio de 2014, o artista Kevin McCoy cunhou na Namecoin uma obra intitulada Quantum, que depois foi recunhada no Ethereum. Ela costuma ser considerada um dos primeiros NFTs; qual obra seria “o primeiro” é uma questão controversa. Em junho de 2021, foi vendida por cerca de US$ 1,47 milhão no leilão “Natively Digital” da Sotheby's.
tokenURI(0) retornou https://ipfs.io/ipfs/QmV6Lf… — observe que se trata de um endereço de gateway HTTPS, e não de um endereço do protocolo ipfs://: o acesso depende de que esse gateway específico, o ipfs.io, continue no ar. Entre as obras on-chain do acervo, é a que tem a dependência externa mais forte.Lado de McCoy: cunhado na Namecoin em 3 de maio de 2014, tem precedência temporal; foi leiloado pela Sotheby's em 2021.
Lado da Free Holdings: o registro original na Namecoin expirou por falta de renovação; a empresa registrou-o novamente e, com base nisso, alega ser a verdadeira proprietária da versão de “Quantum” na Namecoin. Em março de 2023, o Tribunal Federal do Distrito Sul de Nova York rejeitou a ação alegando, entre outros motivos, falta de legitimidade da autora (que depois recorreu); em fevereiro de 2026, a Suprema Corte do Estado de Nova York no condado de Kings também rejeitou a ação, por considerar vagos demais os termos de oferta invocados.
Há também quem defenda que a definição de “primeiro NFT” depende de onde se traçam os limites; as Colored Coins (2012), apresentadas anteriormente nesta sala, e outros experimentos pioneiros também reivindicam o posto.
Coleções e arte generativa na blockchain
Entre 2017 e 2021, um punhado de coleções definiu a cultura dos NFTs: o avatar como identidade, o algoritmo como autoria, a posse como filiação. Cada item abaixo traz seu endereço de contrato on-chain. (Você mesmo pode verificar que cada um existe e é único.)
CryptoPunks
É uma das principais inspirações do ERC-721. Dez mil avatares de 24×24 pixels, distribuídos gratuitamente em junho de 2017, quando o Ethereum ainda não tinha um padrão para tokens não fungíveis; descrever ativos desse tipo foi uma das motivações do padrão. Esta sala o inclui pela sua importância técnica: ele mostrou que a unicidade pode ser estabelecida apenas por um registro em contrato, sem que nenhuma instituição a avalize. (Sua importância cultural é tratada em outra peça, na sala Cultura e futuro.)
CryptoPunksData (0x16F5…F3B2); em teste, a chamada retornou 17.498 caracteres, sem passar por nenhum servidor.punkImageSvg(index); o valor retornado pode ser aberto diretamente no navegador.CryptoKitties
Sua importância histórica não está nas imagens, e sim no congestionamento que provocou. Em dezembro de 2017, o jogo chegou a responder por mais de um décimo das transações do Ethereum (as estimativas vão de cerca de 11% a 25%), causando congestionamento grave e alta nas taxas. Foi a primeira vez que todos puderam ver as consequências práticas de um teto rígido para a capacidade da cadeia principal. Por isso, aqui ele deve ser visto como o ponto de partida do problema de escalabilidade, e não apenas como um item colecionável: foi um teste de estresse, e o roteiro de camada 2 que veio depois (veja o núcleo IV desta sala) é, em certo sentido, uma longa resposta àquele dia.
tokenURI retornou execution reverted, pois essa interface ainda não era padrão na época. As imagens são servidas pelos servidores da Dapper Labs.Beeple, “Everydays: The First 5000 Days”
O que ela mudou não foi a arte, e sim as condições de acesso ao mercado de arte. Em março de 2021, a Christie's a vendeu por US$ 69,3 milhões e aceitou criptomoeda pela primeira vez: foi a primeira vez que uma grande casa de leilões avalizou uma obra puramente digital. A própria forma da obra é singular: as 5.000 imagens vêm de uma prática diária mantida desde 2007, de modo que parte de seu valor se apoia numa prova de tempo ao longo desses 5.000 dias, que é justamente a metáfora central da própria blockchain.
tokenURI (token #40913) retornou ipfs://ipfs/QmPAg1…: o contrato guarda apenas o hash do conteúdo, e o arquivo da colagem, de 21.069×21.069 pixels, fica no IPFS; sua preservação depende de que ele continue fixado (pin).Bored Ape Yacht Club
Ela transformou o NFT de item colecionável em filiação. Quem possui um deles recebe não apenas um avatar, mas acesso a uma comunidade e direitos comerciais sobre a imagem, direitos que poucas coleções anteriores haviam concedido de forma tão ampla. O que a distingue é ter comprovado um caminho oposto ao dos CryptoPunks: o valor dos Punks se apoia na escassez e na posição histórica; o da BAYC, no que seus donos podem fazer com ela. O museu expõe os dois lado a lado para mostrar as duas definições bem diferentes de “propriedade on-chain” que surgiram na prática.
tokenURI retornou ipfs://QmeSjSin…/1: metadados e imagens ficam no IPFS, e o contrato guarda apenas o ponteiro.Art Blocks
Algoritmos armazenados on-chain e executados no momento da cunhagem: a casa do movimento de NFTs de arte generativa, de onde saíram Chromie Squiggle, Fidenza e outras. Fundada por Erick “Snowfro” Calderon.
Ethereum Name Service
Associa name.eth a um endereço, fazendo da identidade um ativo on-chain passível de posse. Criado por Nick Johnson e hoje governado pela ENS DAO.
Novas organizações, escalabilidade e múltiplas redes
DAOs e camada 2As origens do conceito de DAO
Em maio de 2014, Vitalik escreveu “DAOs, DACs, DAs and More: An Incomplete Terminology Guide”, a primeira tentativa sistemática de delimitar a terminologia das entidades autônomas descentralizadas. Se os contratos inteligentes permitem que o código execute um acordo, as DAOs vão um passo além: uma organização pode existir sem empresa e sem gestores?
Três experimentos de forma organizacional
De uma ideia a dezenas de milhares de pessoas controlando juntas uma mesma carteira: em menos de uma década, as DAOs fizeram três experimentos emblemáticos. Um terminou em desastre, outro virou um modelo de governança amplamente copiado, e o terceiro levou a palavra ao grande público.
The DAO
A primeira grande DAO no Ethereum (Slock.it, liderada por Christoph Jentzsch) e a primeira tentativa em grande escala desse tipo de organização. Em junho de 2016, um atacante explorou uma falha no contrato e drenou cerca de um terço dos fundos (aproximadamente 3,6 milhões de ETH); o Ethereum reverteu o ataque com um hard fork, e a cadeia que não aderiu ao fork segue existindo como Ethereum Classic (mais detalhes em Triunfos e desastres).
Módulo de governança da Maker
A votação contínua de aprovação pelos detentores de MKR foi uma das primeiras práticas de governança on-chain. Tanto a documentação técnica quanto o manual de governança são de código aberto. O MakerDAO passou a se chamar Sky.
ConstitutionDAO
Cerca de US$ 47 milhões em ETH arrecadados em sete dias (cerca de 17.000 contribuintes, aproximadamente 11.600 ETH) para disputar em leilão um exemplar impresso da Constituição dos Estados Unidos. A DAO acabou perdendo para Ken Griffin, e os reembolsos foram feitos pelo mecanismo de overflow do Juicebox. Foi a primeira vez que as DAOs chegaram ao grande público.
Por que a camada 2 é necessária
A mainnet sacrifica capacidade de processamento em favor da segurança e da descentralização. Não é um defeito, e sim uma escolha deliberada: se qualquer pessoa no planeta deve poder verificar todo o histórico por conta própria, num computador comum, os blocos não podem ser grandes nem frequentes. O preço é gas caro e baixa capacidade quando a rede está movimentada (você pode sentir isso na peça interativa de gas, acima). A proposta da camada 2 não é afrouxar os limites da mainnet, mas levar a computação para fora da cadeia e devolver apenas o resultado e uma prova.
Plasma: Scalable Autonomous Smart Contracts
Uma das primeiras arquiteturas de L2: cadeias-filhas mais provas de fraude. De Joseph Poon e Vitalik Buterin. Note que Poon também é coautor do artigo da Lightning Network: aqui convergem as ideias de escalabilidade das duas redes.
A rollup-centric ethereum roadmap
O anúncio de Vitalik de que o Ethereum apostaria tudo nos rollups: o ponto de virada estratégico da escalabilidade, a partir do qual o papel da mainnet passou a ser o de camada de disponibilidade de dados e de liquidação.
Dois caminhos de rollup e o universo multichain
Todos os rollups levam as transações para fora da cadeia, comprimem-nas e devolvem o resultado à mainnet. O que muda é o motivo para acreditar que a computação off-chain está correta: os rollups otimistas presumem que está e deixam uma janela de contestação durante a qual uma fraude pode ser provada; os rollups de conhecimento zero provam a correção de imediato, por meio de criptografia. Existe ainda um caminho totalmente diferente: em vez de escalar uma única cadeia, conectar muitas.
Rollups otimistas · Arbitrum / Optimism
As transações são processadas off-chain e depois comprimidas e publicadas na mainnet, herdando a segurança dela, com mais capacidade e taxas menores. A Arbitrum One entrou no ar em 31 de agosto de 2021; o OP Stack da Optimism, depois de aberto, deu origem à Base e a outras redes.
Rollups de conhecimento zero · zkSync / Starknet
Provas criptográficas de conhecimento zero garantem que a computação off-chain está correta: escalabilidade de baixo custo, com confiança minimizada. O zkSync v1 entrou no ar em junho de 2020 (Matter Labs); o Starknet Alpha, em novembro de 2021 (StarkWare), baseado na Cairo VM e em provas STARK.
Universo multichain · Cosmos / Polkadot
Comunicação entre cadeias e arquitetura multichain heterogênea: a “internet das blockchains”, em que a descentralização não fica restrita a uma só cadeia. O Cosmos (Jae Kwon e Ethan Buchman) conecta cadeias soberanas via IBC; o Polkadot (Gavin Wood, whitepaper de outubro de 2016) usa uma relay chain com parachains.
O Bitcoin também tem sua própria camada 2: a Lightning Network (Poon e Dryja, 2015) usa canais de pagamento off-chain para pagamentos pequenos, instantâneos e de taxa baixa. Ela está exposta como marco na sala Triunfos e desastres, em contraponto ao caminho de escalabilidade do Ethereum apresentado aqui: um mesmo problema, duas respostas diferentes.
Fatos essenciais
- A rede principal do Ethereum entrou no ar em 30 de julho de 2015, introduzindo os contratos inteligentes.
- As stablecoins somam mais de US$ 300 bilhões (valor variável).
- A maioria dos NFTs é construída sobre o padrão ERC-721 do Ethereum.
- A camada 2 usa rollups para aumentar a capacidade e reduzir as taxas de gas.